Construindo confiança em equipes de alto desempenho

Publicado originalmente no Portal Administradores em 19/08/2025.

Em setembro de 2019, publiquei um artigo chamado “Conviver para conhecer e conhecer para confiar” no Portal Administradores. Era uma reflexão sobre a importância da convivência para a construção de times de alto desempenho.

Naquele texto, eu compartilhei uma frase que costumo repetir com frequência em contextos de liderança: “É preciso conviver para conhecer e é preciso conhecer para confiar.” À época, destaquei como a convivência cria oportunidades de perceber as potencialidades, as preferências, os limites e os propósitos de cada pessoa dentro de um time. Reforcei que a cooperação verdadeira só é possível quando existe confiança, e que confiança se constrói no dia a dia, na escuta, no respeito e no compartilhamento de trajetórias.

Falei também sobre o papel do líder em promover momentos de convivência significativa, porque é no convívio, e não apenas na convivência funcional ou mecânica, que conseguimos conhecer de verdade quem caminha ao nosso lado.

Hoje, quase seis anos depois, continuo acreditando profundamente naquela frase. Mas a vida, o trabalho e a sociedade me mostraram que a forma como convivemos mudou, e talvez continue mudando, mas a necessidade de conviver permanece. Mais do que nunca, precisamos estar atentos às novas possibilidades de construir relações significativas e ambientes de confiança.

Nos últimos anos, temos falado muito sobre o trabalho remoto, o trabalho híbrido, o presencial, o assíncrono… rótulos à parte, o que importa é reconhecer que o ato de conviver se diversificou. Hoje convivemos através de telas, áudios, textos, emojis, reações de videoconferência, figurinhas e memes. E mesmo nesse formato, ainda buscamos nos sentir vistos, ouvidos e reconhecidos.

Ainda acredito que ninguém confia em quem não conhece, e que é quase impossível conhecer sem conviver. Mas o que significa “conviver” nesse novo tempo? Será que não estamos precisando ampliar esse conceito?

Conviver talvez seja, cada vez mais, promover espaços onde as pessoas se sintam seguras para expressar suas ideias, compartilhar suas inseguranças, mostrar suas potências e seus limites. Não é sobre estar junto o tempo inteiro, mas sobre estar presente de verdade, quando for necessário.

E aqui cabe um reforço importante: a convivência presencial continua sendo uma das formas mais potentes e eficazes para construir laços verdadeiros. Estar fisicamente ao lado do outro, dividir o mesmo espaço, compartilhar olhares, silêncios, almoços, pausas para o café… tudo isso cria oportunidades únicas de conexão humana. Mas é fundamental lembrar que estar fisicamente presente não significa, automaticamente, estar emocionalmente presente. Podemos estar na mesma sala e, ainda assim, distantes. Distraídos com telas, pensamentos, pressões e ausências internas.

Presença de verdade exige disposição para interagir, escutar, compartilhar. Requer entrega. E essa entrega também é possível nas novas formas de convivência que emergiram nos últimos tempos. Grupos de mensagem, videoconferências com escuta ativa, check-ins emocionais virtuais, trocas em plataformas digitais, tudo isso, quando feito com intencionalidade, pode gerar conexões significativas.

Ou seja, não se trata de escolher entre o presencial e o digital, mas de aprender a ser presente em qualquer formato. De cultivar o encontro, seja onde e como ele for.

Aqui entra o papel essencial da liderança. Mais do que facilitar processos, entregar resultados e otimizar agendas, é preciso promover encontros que importam. É responsabilidade dos líderes criar momentos em que as pessoas possam se enxergar, se escutar e, aos poucos, se conhecer.

Na convivência, aprendemos o valor das diferenças. Descobrimos o que move cada pessoa. Criamos referências sobre quem está do nosso lado. E isso, com o tempo, vira confiança. E com confiança, surgem times de verdade.

E é justamente sobre a confiança que também precisamos refletir mais profundamente neste novo tempo. Em um mundo cada vez mais mediado por tecnologias avançadas, como a inteligência artificial e os algoritmos de geração de imagem, áudio e vídeo, confiar passou a exigir outros filtros. Já não basta ver ou ouvir para acreditar. A era dos deepfakes, das manipulações digitais e das informações enviesadas nos faz lembrar daquela conversa entre Neo e Morpheus, em Matrix: “O que é real?”

Hoje, mais do que nunca, confiar requer critério, sensibilidade, tempo de qualidade e validação múltipla. Precisamos voltar a valorizar o contato humano como elemento verificador da verdade. A convivência constante, a escuta ativa e o relacionamento autêntico são ferramentas poderosas para checar, validar e, sobretudo, criar relações de confiança sustentável.

Mas talvez a pergunta agora seja: estamos prontos para confiar?

E, como em Matrix, talvez a chave não esteja em distinguir o que é real, mas em decidir no que queremos e podemos acreditar. A convivência é essa escolha cotidiana. É um caminho de presença, intencionalidade e humanidade. Porque no final, só confia quem se permite encontrar. E só encontra quem escolhe estar.

Que sigamos convivendo com coragem, conhecendo com empatia e confiando com esperança.
Seguimos precisando conviver para conhecer e conhecer para confiar. O que mudou foi o trajeto. O destino, esse continua o mesmo.