18 de fevereiro de 2025
Certa vez, observei um pai e seu filho em um parque. O menino, de uns sete anos, tentava subir em um daqueles brinquedos de escalada, mas sempre escorregava antes de chegar ao topo. O pai, impaciente, dizia:
— Desce daí! Você vai se machucar!
O menino olhou para ele, pensou um pouco e desceu, cabisbaixo. A brincadeira havia acabado.
No mesmo parque, alguns metros adiante, outra cena me chamou atenção. Uma menina da mesma idade tentava subir no mesmo brinquedo. Seu pai, ao invés de mandá-la descer, encorajava:
— Tenta de novo! Onde você acha que pode apoiar o pé para subir melhor?
A menina respirou fundo e tentou mais uma vez. Depois de algumas tentativas e de escorregar algumas vezes, ela finalmente conseguiu chegar ao topo. Olhou para o pai, que sorria, orgulhoso.
Naquele momento, percebi a diferença entre ser um chefe e ser um líder dentro de casa.
Ao longo da minha trajetória como administrador, aprendi que liderar é muito mais do que delegar tarefas ou estabelecer regras. Liderança de verdade tem a ver com ensinar pelo exemplo, com desenvolver pessoas e criar um ambiente onde a autonomia e a responsabilidade caminham juntas. No mundo corporativo, já vi gestores que acreditam que o controle absoluto é sinônimo de eficiência. Exigem que seus colaboradores sigam ordens sem questionar e, sem perceber, criam times que têm medo de errar e que dependem deles para tudo. Por outro lado, há aqueles líderes que confiam, que estimulam a criatividade e que ensinam suas equipes a pensar por conta própria. Esses são os que deixam um legado.
Foi só depois de me tornar pai que percebi que essa lógica se aplica completamente à criação dos filhos. O chefe da casa impõe limites sem explicação, dita regras sem abertura para diálogo e acredita que sua função é apenas garantir a obediência. Ele pode até conseguir disciplina a curto prazo, mas à custa do medo e da dependência. Já o líder dentro de casa cria um espaço seguro para o erro, guia sem carregar no colo, ensina seus filhos a tomarem decisões e a lidarem com as consequências. Ele sabe que a verdadeira proteção não está em evitar que o filho caia, mas em ensiná-lo a se levantar.
A diferença está no olhar. O primeiro pai que vi no parque só enxergava o risco. O segundo enxergava uma oportunidade de crescimento. O primeiro queria um filho obediente. O segundo queria um filho corajoso. Isso me fez lembrar um trecho da música “O Que É, O Que É”, de Gonzaguinha:
“Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz…”
Que grande verdade! Quando educamos apenas para a obediência, privamos nossos filhos da experiência mais valiosa da vida: aprender. E o aprendizado não é algo que termina quando nos tornamos adultos, pelo contrário. Minha experiência como administrador me ensinou que o desenvolvimento contínuo é o que diferencia os profissionais medianos daqueles que se destacam. Mas, mais do que isso, é o que diferencia adultos inseguros de adultos confiantes. E essa base começa na infância.
Nossos filhos não precisam que tracemos um caminho perfeito para eles. Precisam que lhes ensinemos a caminhar. Se os protegemos de todo desafio, como aprenderão a superar dificuldades? Se exigimos que apenas nos obedeçam, como terão autonomia para decidir? Liderar na vida profissional e na vida pessoal exige paciência, exige saber quando orientar e quando apenas observar. Exige compreender que, mais cedo ou mais tarde, eles terão que tomar decisões sem a nossa presença.
Talvez a maior responsabilidade que temos como pais não seja a de evitar que nossos filhos errem, mas a de prepará-los para enfrentar os erros sem medo. Porque, no fim das contas, o verdadeiro sucesso de um pai ou de uma mãe não está em criar filhos que nunca caem, mas em criar filhos que sempre se levantam.
E você, como tem guiado os passos daqueles que um dia seguirão sem você?