Conviver para conhecer e conhecer para confiar

Publicado originalmente no Portal Administradores.com em 19/09/2019.

Quem eu tive a oportunidade de liderar certamente me ouviu dizer esta frase: “É preciso conviver para conhecer e é preciso conhecer para confiar”.

Normalmente falo sobre isso no processo contínuo de construção de times de alto desempenho. Acredito que, além de estabelecermos em conjunto um mesmo propósito que seja inspirador, é preciso fazer com as pessoas gostem de trilhar o caminho juntas. E isto é especialmente importante quando os objetivos não são fáceis e nem de curto prazo. Entendo que, para gostar de caminhar junto, é preciso haver confiança. Afinal de contas, você não fica à vontade para cooperar caminhando lado a lado de quem você não confia.
Mas como fomentar a construção de um ambiente em que as pessoas confiem umas nas outras em nível ideal para trabalharem eficiente e eficazmente juntas? Espera-se que times de alto desempenho se aproveitem das diferenças para gerar complementaridade e que isso resulte em eficiência no processo de geração de produtos inovadores e eficazes.

Particularmente, acredito que, em geral, as pessoas não confiam em quem não conhecem.

E quando podemos dizer que confiamos em alguém? A famosa frase atribuída ao filósofo grego Sócrates “conhece-te a ti mesmo” já dá a ideia do quão desafiador é poder dizer que conhece alguém. Mas, do ponto de vista do objetivo do time de alto desempenho, este “conhecer” não significa necessariamente ter que conhecer o outro membro do time a ponto de desenvolver uma grande amizade. Prioritariamente, estamos falando de conhecer o outro em termos de potencialidades, oportunidades de melhoria, preferências, aspirações profissionais e motivações.

Uma provocação comum nesta linha de raciocínio seria: como tornar possível conhecer as pessoas do time neste nível? Acredito que o melhor caminho é o da convivência. Os líderes deveriam promover e incentivar o convívio entre os componentes do time. Quando falo de convivência, falo de interações dentro e fora do espaço do trabalho.
Obviamente que estas oportunidades de convivência não devem ser impostas e sim construídas de forma natural, com o objetivo genuíno de gerar bem-estar e felicidade para aqueles que as aproveitarem.

Em primeira ou última instância, todo ser humano tem por objetivo ser feliz. Então, se o propósito do líder for verdadeiro e ele realmente se dedicar a promover a felicidade para si e para os demais integrantes do seu time, estes momentos de convivência serão prazerosos e as pessoas da equipe vão querer compartilhar mais e mais momentos entre si.

Pela própria dinâmica de relações entre os seres humanos, estas interações passarão pelo compartilhamento de percepções, preferências, aspirações, desejos, motivações e outras informações. É assim que podemos chegar ao “conhecer” que nos referimos.
Chegando ao ponto de se ter uma equipe que se conhece mutualmente, pode-se melhor identificar aqueles dignos de confiança. Obviamente que a convivência não gera confiança como resultado direto, mas ela possibilita que aqueles que a mereçam a tenham. Por outro lado, cabe ao líder decidir o que fazer com os que não a merecem.

Outro ponto interessante quando se fala de “conviver” e “conhecer” é que esta combinação possibilita mais e melhores oportunidades de feedback e desenvolvimento entre pares e entre lideres e liderados. Isto ocorre, pois, quando as pessoas se conhecem, convivem e confiam umas nas outras o time tem mais liberdade e interesse para identificar oportunidades de crescimento uns dos outros, apontar e ajudar no desenvolvimento mútuo.


Em resumo, acredito que os líderes devem promover a convivência entre os membros do time, para que eles possam se conhecer e assim confiar uns nos outros. Desta forma, serem capazes de eficientemente gerarem produtos e resultados eficazes e pessoas felizes no trabalho.